Viajar pode fazer bem ao cérebro — e a ciência começa a explicar por quê

Viajar pode fazer bem ao cérebro, novos lugares novas conversa, novos sabores, outras paisagens.

Há algo que acontece conosco quando chegamos a um lugar onde nunca estivemos.

Primeiro, prestamos mais atenção ao caminho. Também observamos detalhes que normalmente passariam despercebidos. Além disso, experimentamos outros sabores, entramos em contato com novas culturas e precisamos compreender ambientes diferentes daqueles que fazem parte da nossa rotina.

Assim, por alguns dias, saímos do automático.

E talvez parte dessa sensação de estarmos tão vivos durante uma viagem tenha uma explicação científica.

De fato, pesquisas realizadas nos últimos anos vêm encontrando associações interessantes entre viajar, bem-estar, saúde cognitiva e alguns indicadores ligados a um envelhecimento mais saudável.

Isso não significa que uma passagem aérea seja uma receita médica — ou que viajar, isoladamente, possa prevenir doenças.

Mas revela algo fascinante:

continuar vivendo novas experiências, movimentando-se, aprendendo e se conectando com o mundo pode ser importante também para a maneira como envelhecemos.

O estudo que relacionou viagens e saúde cognitiva

Ao todo, uma das pesquisas mais interessantes sobre o tema acompanhou 6.717 pessoas com 60 anos ou mais durante vários anos.

Nesse sentido, publicado em 2023 na revista científica Frontiers in Public Health, o estudo investigou a relação entre experiências de turismo e o desenvolvimento de comprometimento cognitivo e demência.

Os pesquisadores observaram uma incidência menor de comprometimento cognitivo entre participantes que haviam viajado em comparação com aqueles que não haviam tido experiências de turismo.

A associação permaneceu mesmo depois de ajustes estatísticos relacionados a fatores como idade, escolaridade, atividade física, renda, tabagismo e qualidade do sono.

Também foi identificada uma associação entre experiências de viagem e menor incidência de demência.

É importante fazer uma distinção: trata-se de um estudo observacional. Portanto, ele mostra uma relação entre esses fatores, mas não permite afirmar que viajar, sozinho, previna demência ou Alzheimer.

Ainda assim, a descoberta abre uma pergunta muito interessante:

o que acontece durante uma viagem que pode ser tão estimulante para o nosso cérebro?

Talvez a resposta esteja no novo

Nosso cérebro está constantemente interpretando o ambiente ao nosso redor.

Quando repetimos todos os dias os mesmos trajetos e atividades, muitas decisões passam a acontecer quase de maneira automática.

Durante uma viagem, isso muda. Por isso, precisamos observar. Interpretar. Escolher caminhos. Compreender novos códigos. Prestar atenção ao que está ao nosso redor.

Além disso, uma pesquisa publicada na revista Nature Neuroscience encontrou uma associação interessante entre diversidade de experiências no cotidiano e emoções positivas.

O estudo também identificou relações entre essas experiências e regiões cerebrais envolvidas em processos de memória e recompensa.

E isso traz uma perspectiva especialmente bonita sobre o ato de viajar.

Na verdade, o novo não precisa estar necessariamente do outro lado do mundo.

Pode estar em:

uma trilha que você nunca percorreu;

uma pequena cidade que ainda não conhece;

uma arquitetura diferente;

uma conversa com alguém de outra cultura;

um prato cujo sabor nunca experimentou.

Viajar é uma das maneiras mais naturais de colocar nossa mente em contato com diferentes estímulos ao mesmo tempo.

Uma viagem movimenta muito mais do que o corpo

Aliás, existe outra característica especialmente interessante nas viagens: dificilmente elas envolvem apenas uma experiência.

Em uma mesma jornada, podemos caminhar mais, socializar, aprender, descansar, contemplar a natureza, tomar decisões, experimentar emoções positivas e interromper temporariamente alguns dos padrões de estresse da rotina.

De fato, muitos desses elementos aparecem, separadamente, na literatura científica sobre viajar e envelhecimento saudável.

O relatório de 2024 da Lancet Commission sobre prevenção da demência identificou diferentes fatores potencialmente modificáveis associados ao risco da doença ao longo da vida.

Entre eles estão inatividade física, depressão e isolamento social.

Ainda assim, nenhum comportamento isolado oferece uma garantia de prevenção.

Mas existe algo interessante quando olhamos para uma viagem como experiência completa:

assim, ela pode reunir movimento, conexão social, curiosidade, estímulo intelectual, descanso e prazer em uma mesma jornada.

Talvez seja exatamente por isso que tantas vezes voltamos diferentes.

E quanto à longevidade?

Também existem pesquisas que investigaram possíveis relações entre férias e indicadores de saúde.

Por exemplo, um estudo publicado em 2000 acompanhou mais de 12 mil homens de meia-idade com maior risco cardiovascular.

Durante o período de acompanhamento, aqueles que relatavam férias anuais com maior frequência apresentaram menor mortalidade geral e cardiovascular.

Outras pesquisas também encontraram associações entre frequência de férias e determinados indicadores relacionados à saúde.

Mais uma vez, é importante interpretar esses resultados com cautela.

Pessoas que viajam com frequência podem apresentar outras características — relacionadas a condições financeiras, saúde, estilo de vida ou disponibilidade de tempo — que também influenciam esses resultados.

Por isso, seria incorreto afirmar simplesmente:

“viajar faz você viver mais.”

A ciência ainda não permite essa conclusão.

Mas podemos chegar a uma ideia talvez ainda mais interessante:

no fundo, uma vida que inclui descanso, movimento, conexão, curiosidade e novas experiências reúne diversos elementos associados ao bem-estar e ao envelhecimento saudável.

E viajar é uma maneira extraordinária de colocar muitos deles em movimento.

A melhor parte: o extraordinário não depende necessariamente da distância

Quando pensamos em viajar, é fácil imaginar grandes distâncias, destinos icônicos ou experiências do outro lado do mundo.

E essas jornadas podem, sem dúvida, ser extraordinárias.

Mas talvez exista uma ideia ainda mais libertadora:

na prática, a descoberta não é determinada pela quantidade de quilômetros percorridos.

Uma experiência nova pode acontecer a milhares de quilômetros de casa.

Ou a poucas horas de distância.

Pode estar em uma pequena pousada cercada pela natureza. Ou em uma cidade histórica que você nunca teve tempo de conhecer. Também pode estar em uma comunidade com tradições diferentes das suas. Às vezes, em uma estrada que leva a uma paisagem inesperada. E, outras vezes, em um final de semana capaz de mudar completamente o ritmo dos seus dias.

De qualquer forma, não é possível afirmar cientificamente que o preço de uma viagem seja irrelevante para a longevidade.

Mas sabemos que novidade, diversidade de experiências e estímulos não pertencem exclusivamente às viagens caras ou distantes.

O extraordinário muitas vezes começa exatamente quando deixamos o conhecido para trás.

Talvez viajar também seja uma forma de permanecer curioso

Durante muito tempo, pensamos em viagens principalmente como férias.

Talvez seja possível enxergá-las também por outra perspectiva.

Viajar pode ser descanso. Também pode ser encontro. Ou movimento. Às vezes, aprendizado. Outras vezes, presença.

E pode ser uma maneira de continuar fazendo algo essencial em qualquer idade:

permanecer curioso.

Curioso sobre outras culturas. Sobre outras formas de viver. Também sobre histórias que ainda não conhecemos. E sobre sabores que ainda não experimentamos. Ou sobre paisagens que nunca vimos. E, algumas vezes, sobre nós mesmos.

Talvez seja por isso que determinadas viagens continuam acontecendo dentro de nós muito tempo depois que retornamos para casa.

Afinal, elas interrompem certezas, apresentam outras possibilidades e nos lembram que o mundo continua sendo maior do que a nossa rotina.

De todo modo, a ciência ainda continuará investigando até que ponto essas experiências podem influenciar nossa saúde ao longo da vida.

Mas uma ideia parece ganhar cada vez mais significado:

continuar descobrindo o mundo também é uma maneira de continuar estimulando a mente, cultivando conexões e acrescentando vida aos nossos dias.

E talvez esse seja um dos maiores luxos de viajar.

Não simplesmente ir mais longe.

Mas continuar sentindo que ainda existe muito para descobrir.

Fontes científicas

Li Q. et al. Tourism experiences reduce the risk of cognitive impairment in the Chinese older adult: a prospective cohort study. Frontiers in Public Health, 2023.

Heller A. S. et al. Association between real-world experiential diversity and positive affect relates to hippocampal–striatal functional connectivity. Nature Neuroscience, 2020.

Gump B. B.; Matthews K. A. Are vacations good for your health? The 9-year mortality experience after the Multiple Risk Factor Intervention Trial. Psychosomatic Medicine, 2000.

Livingston G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 2024.